Meu eu

É, posso confessar.
Mas não há como evitar
A saudade me domina.
Acaba que me alucina

É difícil esquecer
Daquilo que você viveu
O que não importa
É aquilo que você esqueceu
Assim como eu.

Átina

Talvez tenha feito isso sem perceber.
Novas portas se abriram
Se não parasse de ler outras coisas por um instante
Não teria lido hoje o que li.
Coincidência  ou destino, palpite ou alerta?
Vou guardar comigo.
De pequena só mesmo o tamanho.

Do colorido ao preto e branco

Era de fato o que já se esperava.
O médico disse que não havia mais nenhuma maneira de tudo voltar ao normal.
O tempo passou e parece que não percebi o que estava acontecendo.Sempre preocupada com o trabalho, quase que não sobrava tempo para passar com o Todd.
Todd é meu marido, e há dois anos atrás quando voltávamos de uma festa de casamento, houve um acidente de carro,ele havia bebido muito e acabou perdendo o controle do carro.
Lembro que estava em alta velocidade e em uma curva fechada, o carro desceu morro abaixo capotando. As crianças estavam em casa. Não eram muito de sair conosco à festas como aquela. Costumavam ficar com a babá, que por sinal é uma mulher maravilhosa que eu conheço há muitos anos; ela chama Sarah. As crianças a adoram. Bom, desculpe por não responder às suas perguntas, mas é que sempre que menciono Sarah, me emociono muito.
Lembro que quando o carro parou, eu só queria saber se Todd estava vivo e mais nada. Não importava com o que pudesse acontecer comigo. Apesar da bebia ele sempre foi um ótimo pai. Sempre quando ele chegava do trabalho, brincava com as crianças e tudo.
Após algum tempo, a polícia chegou no local, juntamente com os bombeiros. Tiraram-me de dentro do carro e levaram-me para o hospital. Tive alguns ferimentos leves, mas ficou tudo bem. Todd ficou no mesmo hospital que eu. Ficava o tempo todo deitada na cama, me recuperando e houve uma hora em que bateu o sono. Estava exausta. Ao acordar e olhar pro lado, vi que ele estava ao meu lado. e infelizmente Todd perdeu uma das pernas entre as ferragens, no acidente.
Depois do que houve com ele. Sempre vamos à médicos para ver se conseguem reconstituírem novamente sua perna. Sem próteses de plástico, mas como algo de metal, revestido de pele humana. Eles falaram que era impossível fazer isso. Mas nunca desistimos.
Até hoje me culpo por não ter feito algo na hora do acidente. É como se o mundo todo desabasse sobre mim e de uma forma ou de outra, todos os problemas viessem à tona.
E se eu tivesse virado o volante para o lado contrário?
Bom, não aguento mais chorar ao lembrar disso.
Sem mais perguntas.
Agradeço a presença de vocês, mas Todd não quer saber da imprensa aqui em casa.
Até.

Instante

Não podia ser! Ouvi alguém dizer: voe…voe.
Mas como voar, se não tenho asas?
A voz me segue para onde quer que eu vá. Não ouço outra coisa além disso.
O que querem que eu faça?
Fingir que eu sou um anjo?É pedir demais.
Estava me dando sono, então, não fiz nada além do nada.  Tomei banho e fiquei assistindo à um programa de culinária até me dar sono.
Adormeci.
A voz não cessava…
Meus ombros doíam muito.. pareciam que algo deveria sair de lá.
Tomei então um relaxante muscular para ver se a dor acabava.
Parou.
Mas em algumas horas voltou, e com mais força.
O que estava havendo? Não conseguia mais dormir. Acordei e fui tomar outro banho quente, em quente para ver se melhorava.
Tirei a roupa e liguei o chuveiro. Esperei a água esquentar. Molhei meu rosto com aquela água quente. Ah! como era bom aquilo..Logo após, molhei meus cabelos..e tentei não pensar na dor.
Deixei a água cair no local e fechei os olhos. A dor estava melhorando.
Passei o shampoo, esfregando meus cabelos ruivos;abri os olhos e vi algo vermelho escorrer por entre meus dedos. Era sangue..
A voz continuava: voe, voe.
Voar como? –  pensei.
Desliguei o chuveiro. enrolei-me na toalha branca e saí correndo para meu quarto, onde havia um enorme espelho pendurado na parede, ao lado da minha cama.
Virei-me, coloquei o cabelo para o lado e olhei para o espelho. Havia um corte imenso..
Vesti uma roupa qualquer e fui tomar café numa padaria na esquina.
A rua estava vazia. Era feriado, quase ninguém na cidade, pouco movimento.
Pedi meu café puro. Tomei. Minha mão começou a tremer e minhas costas a doerem.
O que era aquilo? Estava doendo muito.
Algo começou a sair de lá.Algo branco.
Eram asas.
Asas brancas, enormes e lindas.
Parecia que eu já sabia o manual de instruções.
A mesma voz ainda estava presente.
Aquela sensação era muito boa. Voar para o infinito, ver toda a cidade alí de cima.
Deitar nas nuvens..
Ver o que antes eu não enxergava.
Apenas voar e não pensar
O pensar naquele momento era o nada.
Nada além do nada.

C’est la vie, mon cher

Estar e não estar
Querer e não poder
Sentir e não sentir.
É, temos algo em comum. Ou não.

E lá se vai
Pra outro lugar
Longe daqui,
Longe de tudo.

Há então uma nova jornada a ser seguida
Uma nova visão a ser obtida
Uma nova estrada a ser construída

E por fim.
Não terei o que espero
Tampouco o que quero
Adaptar-me à uma nova ordem,
É o que me resta.

O que se tem e o que se pede

Partes de duas dimensões.
O que se tem e o que se pede.
O que se tem,
Não é nada mais além do que o necessário.
O que se pede é algo confuso.
Confusão ao qual torna-se posteriormente a nova ordem.
Ordem essa que me confunde.
Mas que ainda sim fazem partes de duas dimensões,
O possível e o provável.

São detalhes que me fazem  perceber o quão és gentil,
O quão deve ser carinhoso,
E o quão é difícil não tê-lo mais assim tão presente.

Assim, de uma só vez me despeço
Não olhando-te nos olhos
E deixando transparecer tudo aquilo que, por hora, me fazes sentir.

É o que é

Tudo se transforma
Querendo ou não.
Nada é em vão.
A solidão é morna..

Onde agora parece acalmar
O que um dia foi um furação
Não há nada além da solidão
E nada parece funcionar

No céu não há mais estrelas à brilhar
Mas mesmo assim ainda continuo procurando
Ouço alguém sussurrando
Dizendo que um dia tudo isso vai acabar

Continuo tentando
Acho que agora eu sei
Pelo menos eu tentei
Ninguém nunca foi feliz uma vez só amando