Poemas
Velhacarias II
Velhacarias
Nosso Maluco beleza
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual…
Aprendendo a ser louco
Maluco total
Na loucura real…
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez…
Ficar com certeza
Maluco beleza
Eu vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza…
Que eu mesmo escolhi
É tão fácil seguir
Por não ter onde ir…
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez
Eeeeeeeeuu!…
Controlando
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez
Ficar com certeza
Maluco beleza
Eu vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza
Eu vou ficar
Ficar com toda certeza
Maluco, maluco beleza…
Um poema de Sílvio Valentin Liorbano
De seu livro: Blefe, vamos fingir um país?
Mediocridade
O homem de concreto
Exibe nas mãos sua história
Fala de privações e sonhos
Que poderiam ser se foram.
O homem de aço
Conta sua saga por meio de pontes
Segue construindo caminhos
Numa ida sem fim.
O homem de água
Partilha seus medos
Com os seres do mar
E sua coragem
Com os seres da terra.
O homem do ar
Desafia a gravidade
E por algum tempo
Consegue ser livre.
O homem público
Não tem história
Nem medos
Nem sonhos
Nem liberdade.
O homem público é medíocre!
Le fabuleux destin d’amélie Poulain
Oito ou oitenta
Desejo.
Desejo de ver tudo concluído.
Medo.
Medo de não dar certo.
Altos e baixos.
Ansiedade.
Ansiedade!
Concentração.
Conclusão.
Felicidade! Não há outra palavra por hora.
Um sonho, uma esperança
Uma Arte!
Uma escolha a fazer
Um caminho a seguir
Uma paixão
Um amor!
Uma vida!
TEATRO.
Toca Raul!
Essence
Je suis ce que je veux être et non ce qu’ils veulent que je sois. Mais il semble que certaines personnes ne comprennent pas. Je ne suis plus un moule. je suis dans l’essence.
C’est tout la meme chose!
Das Vantagens de Ser Bobo – Clarice Lispector
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


