Avalanche

Hoje eu sonhei e não queria abrir mais os olhos. Fiquei deitada na cama, tentando voltar para o mesmo sonho, mas foi inútil. Eu estava cara a cara com a realidade.
Quase nunca escrevo corrido.
Corrido é o tempo que se perde quando você não está.
Você sumiu. Não responde.
O meu céu hoje é roxo.
Como a dor que habita em mim.
Escrever purifica um pouco a alma, mas não faz a dor sumir… é só um esconderijo.
Esconderijo cinzento e baixo, com pétalas azuis de uma orquídea que um dia foi bonita… que um dia embelezou e trouxe alegria para aquele cantinho pequeno e claro que eu imaginava… que eu sempre imaginava.
É tão estranho viver no singular depois de um plural intenso e bonito.
Eu queria ser mais forte, mas eu não estou conseguindo.
Eu não sei.
Te vejo muito longe, caminhando por entre uma cidade que te engole.
Deus, tende piedade de mim
As orações me falham…
As palavras surgem e desaparecem no ar.
Eu não posso chorar. Meus olhos vão ficar inchados e feios.
Até hoje os cílios mais bonitos, são os seus.
Eu estou dentro dos seus olhos e isso era tão lindo
Minha alma escorre e deixa transbordar um vermelho queimado e esquecido

almejando nuvens

Em meio a chuva lá estava eu. Sozinha, sonhando para que você aparecesse na minha frente.
Mas nada aconteceu
Essa dor latente me amaldiçoa
Quero fugir, desaparecer
Desconectar-me e me conectar em você
Amanhecer em você
Não quero mais estar onde estou
Me leva daqui
Uma agulha perfura minha pele. Vejo o sangue, mas nada acontece
Você não está lá.
Quando acordo sinto raiva por ter sonhado com você.
Olho pro lado e você não está lá
Meus olhos incham e minha respiração falta.
Eu quero viver
Quero que essa dor acabe
Não importa se o mundo desabar
É com você que eu quero estar.

Numerado em 36

Entorpeço-me de cores pra disfarçar o preto e branco
Quando sorrio é como se meus dentes fossem parte de um abismo
Me perco em anotações suas de algarismos
& do seu caderno, as folhas arranco

Uma lágrima cai e molha o papel
Quereria eu poder te sentir novamente
Voltar no tempo, me ver sorrir contente
Do outro lado um vendaval
Lembro de você catando as marchinhas de carnaval

O tempo passa por você
Brinca, dança, acha graça sem querer
Mas no fim, lá está você
Pregando os olhos, sem querer adormecer

Entre fronhas e penas

Quando não estou, estou dentro de mim, mergulhada em uma consciência de  fuligem
As palavras me escapam, escorrem por entre meus dedos e as vejo caindo.
Sonho que estou em um milharal, deitada no chão. Vejo algumas formigas caminharem pelo meu braço. As vezes eu acho que as formigas brotam da minha pele, não importa onde eu esteja.
Deitada ali, olho para o céu . O dia está ensolarado e eu ali, querendo voar.
Ecoando pássaros azuis, continuo a observar…

Assinado eu

Meus olhos ardem amor

Nao levo nada além de uma dor
Teu respiro é minha cor
Quantos dias pra caminhar na plataforma sem sabor?
Outrora meu coração bate inquieto 
Quero sonhar e permanecer inerte
Meu eu num breu sem eixo nem teto 
Quantos pulmões quer que eu aperte?

Caminhando ouvindo uma canção 
Já não se faz do aço um coração 
Sua face aqui espero
Com pressa, e de modo eterno 


Estação sonial

Eu estava ali, deitada num branco totalmente branco, incandescente, enquanto, de longe, você surgia e se deitava ao meu lado.

Por muitos minutos seus olhos encontravam os meus, sua mão encontrava a minha, sua respiração era como a minha, tranqüila e quieta.
Uma estranheza de sonhar um sonho não vivido.
O mesmo sonho foi sonhado pela segunda vez.
O meu lado era o seu, e eu te olhava de cima, tão lindo e tão ali. Eu pude por um momento descansar meu corpo sobre o seu, ouvir seus batimentos, ver em seus olhos uma resistência, querer desmoronar e permanecer intacto. Seus olhos me dizem, seus olhos sorriem pra mim. Você se aproxima, me beija, e eu desperto.

Cinza vazio

Preciso respirar cores 

Exalar sabores 
Te ver em mares azuis
De um dia de domingo preguiçoso
Pra eu não desintegrar
Te encontro cinza vazio
Com um buraco na face
Tudo desaparece
Anoitece 
Sentimento esquisito esse do não deixar
Te quero até o sol virar uma bolinha de gude
Amor
Amado
Te amarei até quando eu não puder mais

Calendário eu

Eu arranquei a asa

O sangue está em toda parte
Minha alma está inflamada
Estilhaços perfuram meu abdômen 
Já não posso me curvar
Apenas fico em dançar as horas esquecidas
De outras vidas vividas
De espelhos ausentes
Descontentes
Parafraseio as notas musicais 
Em máscaras de carnavais
Que grudam na face 
E ao serem retiradas
Levam com sigo 
A pele que recobria um rosto pálido
Ácido mas doce
O que sinto
Não tenho controle sobre isso
Até parece que minha casa chama abismo 

Entre méritos

É tão estranho eu dizer meias palavras

Não sou meia pessoa
Não amo meio alguém 
As palavras te corroem por dentro
Te fazem congelar e descongelar o que quiser
Sinta a minha presença 
Sinta o meu cheiro
Você nem deve se lembrar 
Sinta as palavras grafadas na sua parede
Fortaleza esquizofrênica 
Vontade deficiente
Destino incoerente 
Podemos ser?
Amados?
Plural?
Tenho sair
Mas algo me puxa de volta ao abissal 

Turbulências de uma plataforma vítrea

Ao fechar os olhos

A escuridão aparece 
E você está ali
Sem escolher pra onde seguir
Amor derradeiro 
Te desfaz por inteiro
Ando no automático 
Permanecendo em pausa
PAUSA
Vontade de ir embora
Ir te encontrar
Em qualquer esquina de algum bar
Dançar até minha respiração ofegar
Desejar estar é pedir muito?