Esquecer: verbo (in)transitivo

Caminho por entre o meio-fio
Apalpo pedras e precipícios
Meu rosto está coberto de letras de jornais
Um alfabeto
&
Mil pensamentos de Amor sucumbidos a uma vida singular
Quanto mais se sabe, mais se quer saber
Dualidade metamórfica dissipada numa linguagem vítrea do esquecimento
Permeia o âmago claustrofóbico
Afogo-me em taças caleidoscópicas  & devoro o mundo

Pólen, porém pó além

A cada  minuto
Meus pés tocam a areia
Onda atravessa a alma
Desfaço-me em pétalas
Sinto  meu corpo flutuar
Como quando pisamos em nuvens
Caminho por entre os paralelepípedos
Planto pontos que iluminam o céu
Estrelas turvas
Choram uma saudade exaustiva
& Abafam a felicidade da Feliz Cidade

Olhos de maçãs

Na madrugada sinto o peso do escuro
Fecho os olhos e meu corpo permanece intacto
Imagens dissipadas aterrorizam o âmago 
Sensação do não despertar
Unhas cravam numa calça jeans
Peito ardente num magnetismo sobrenatural
É hora de despertar
E nada
Ouço vozes ao longe
Gritos, sussurros & sorrisos 
Corpo estático
É hora de despertar
E nada
Língua pesa no palato que não se move
Escadas rolantes abissais
Silêncio permeável 
Entre imagens azuis interrompidas 
É hora de despertar
Gritos & lágrimas
São três da manhã

Alquimia em água doce

O branco reaparece borrado com tintas vermelhas em beijos orquestrados de marfim
Sentinelas iludem as verdes bordas encarceradas da varanda em fumaça
O desenho nunca se repete
É lindo
Como um caleidoscópio em fumaça
Cores
Amores
Castos
Gastos
O arco-íris se faz em um só corpo
Solto pétalas de nudez em água doce
As cores vibram Drexler
Respiração dissipada em violão
Calmaria dá-se num mergulho de consciência
O Mundo desaparece quando os olhos se fecham em águas mansas

Quiçá as nuvens ainda sejam algodão

O calor me enfraquece

Alegria dissipada em saudade congelam seres pares
Sou algum número ímpar em meio a uma dedicatória esquizofrênica
Um novo ano está pra chegar
E parece que as coisas serão as mesmas
Encontro sem abraço demorado
Sem olhares e sem por quês
Permaneço estática
como um borrão de tinta impermeável que não escorre mais
Reciprocidade se esvai em estrelas
Será que o meu amor é mesmo meu?
Felicidade e angústia
Sinto como se fossêmos estranhos
Sem balões pra decorar
Sem sextas-feiras pra amar
Sem Domingos para enfeitar
Sem tempo pra estar
Cem dias pra raiar
O tempo 
Interrompido
O tempo
Nunca existiu 

Hora de celebrar a si mesmo

Pele que descama sem querer

Lágrimas empilhadas, caídas em um amor desigual
Suspiro e nada sinto
Vazio colorido e metamórfico 
Transfigura-se em novas ondas borradas de tinta

Tempo de permear

Caminho por entre pedras e paralelepípedos

Sondando  uma presença vítrea de eros absense
Sinto-me sufocar a cada respiração
Numa naturalidade sem tamanho
Somos a flecha da liberdade

Rios de pandora

A cada palavra não dita meu pulmão entra em coma. É como se eu estivesse num terraço de um prédio com cacos de vidro no chão e meus pés fossem tocando-os.

O sangue escorre cinza. Na face não há cor.
Na pele, os pensamentos são grafados com agulhas esquizofrênicas.
Elas não sabem o que fazem.

Meia-noite em São Paulo

O canto se faz em meio as brumas

Onde luzes habitam em pedras de alecrim
Somos  a pólvora que se deu num domingo de notas agudas
Enquanto Baco sussurra canções de algodão
O Sempre sempre esteve escondido como pingos de chuva 
Numa cidade que soluça a saudade

Espectros lunares

Os pássaros cantam a urbe inflamada de pólvora

Eros que renasce em passos de quimera
Deixa estar o que se há de melhor em não dizer
Homem fumaça é engolido
O corpo degrada a cada não dito
Ser. Arte que escorre entre os muros
Poetizam as ruínas de um não ouvir
Energia se transpõe em corpos unidos
Um amor maior que não é tocado
É quando dou-me conta de que Saint-Exupéry tinha  razão
“O essencial é invisível aos olhos”