Entre cortinas & passos

Mente submersa dança sentimentos borrados

A cidade digere o amor
Corpos arrepiados
Desafios lançados
Apenas uma taça
Uma taça de vinho tinto seco
Solidão do agora que se completa em frases colombianas
A vida é tão imensa que se faz em estilhaços abruptos
Um outrém é lançado no ar
Movimento que cai como folha solta no ar
Solta o que há de animalesco 

A semântica da androclave

Num trago a cidade dorme
Horas  em cores suntuosas
Denotam o estrelato por acaso
Olhares que se perdem na multidão
Dessas luzes vejo corpos automáticos de almas inertes
Sinto o cheiro de verso incompleto
Do branco no preto que borra o vermelho e o faz sumir

Desejo violáceo

Escorre em seu tecido vinoso
Uma esperança obscura
Ausência que se faz em tempo de despedida
Desejo vítreo recoberto de vermute
Pinga ácido pírico que  transita na corrente sanguínea
Mentes suntuosas perfuram o hipotálamo
Jorrando apenas estigmas de eros absence.

Caminhar sem dois

A solidão escorre por  entre as paredes

Água guia a alma até o ralo
O cabelo gruda no batom que borra o espelho
Sorriso laminado envolto de gargalhadas & simpatias
Um querer que não se sabe
Caminha densamente até um clarão definitivo
Onde não se pode escolher em dias de pássaro
Um aninhar em mi menor
Um alinhar sem dor
Um caminhar sem dois
Dopamina

Quando

Um acontecimento lindo

O sol se esconde
Mas depois aparece sorrindo timidamente
Coincidências me perseguem
Aproximação que se faz em despedida
Quando?
Talvez um até logo
O segredo é a corrida
Entre linhas traços e bobagens
Um toque
O abraço que se desfaz em luz maior

Vire o verso

Passo os olhos lendo um plural desfeito
Um sentimento de dor habita nas palavras
A espera é sempre dolorosa
E saber que há outra possibilidade
É como afundar as mãos nos ouvidos enquanto se deixa a água cair
Com a boca aberta a água escorre e se esvai
O amor é assim
A única coisa que se ouve num mergulho é a consciência de um corpo em liberdade

O sol me traz vertigem
Água escorre no espelho
O que se vê são olhos saltados
O vermelho define
Eros absence
Cordialidade tamanha em tempos de ausência
Apenas

De tarde a palavra

De um lado uma história que nasce

Em meio aos dias de veludos
Envoltos de uma felicidade esgarçada
Do outro
Uma vontade anárquica invadindo os asfaltos
Verde.
Um verde que não gosto.
Uma cor fora de moda.
O vidro intacto com uma taça
Simbolizando o vazio
O país se move
As risadas movem
Apenas um olhar e um sorriso 
em meio aos quatro vidros e um telefone
Com uma gravação tão alta 
Que é preciso afastar o aparelho do ouvido.
Decisão.
Cisão.
Corte.
Sorte.
Quem sabe.
Poesia presa numa estréia de Genet
Como se por um instante pudesse estar em calçadas preto e brancas 
De uma bossa nova esquecida
Onde a presença é na verdade uma ausência embebida de um pólem grotesco
É natural
O diferente é normal
Normalísssimo sem atração
À espera de um balcão
Numa cadeira descascada
Que celebra a alegria do não querer
Sorrisos amarelos
Sorrisos
Só risos.
Só.
Ris sós?
É a solidão que te bate na porta
Porque quer companhia

Muros gelatinosos

Toque para escrever

As palavras são sombras da consciência 
Navego por entre os mares do Adeus
Sentimento plural singularizado
Encontros de olhares nulos
Como se o sol pudesse adoçar os ventos

Entre janelas & grama

Vontade estranha de abraçar

Vejo o sorriso largo em meio aos raios de sol do parque
Sei que é o sonho em segunda camada
Mas isso não me tira a felicidade
Serenidade que se instala no verniz ao som de cantos gregorianos
As palavras que são ditas não são verbalizadas
Não passo de verbos me meio a suas frases
Somos o que queremos ser
Quando e como queremos ser

Até que algo desperte

Quando se fecha os olhos

Uma nuvem de verniz desaba sobre mim
É como se a poesia andasse de esquina em esquina à procura de um poeta criador
Estado de superioridade?
A questão é optar em dizer ou não
As pessoas não conhecem o lado B das coisas
Ainda continuo com minha tese
Não vejo necessidade em sorrir o tempo inteiro
Em praticar conversar enfáticas 
Em transbordar uma alegria esburacada
Palavra é energia
Não desperdiço energia
Minha alma criadora de reinos abissais
Perfura o sentimento demasiado aborrecido
Estou em pausa e permaneço nela até que algo me desperte