Um tilintar de veludo no ar

Sinto o vento gelado entrar em meus pulmões.São onze e dez e o sol deixa meus olhos pequenos.
O cabelo sempre no rosto faz eu contar quantos fios estão grudados no meu batom
Caminho por entre as entrelinhas em uma presença que já não faz diferença. Somos quem somos e o que os outros dizem que somos.

Ao meu compasso mudo

Hora de ter o meu próprio barco
Cair no balanço enjoado do mar & desaguar amores
Ouço um barulho inexistente de um despertador
O lilás me cerca em dias cinzentos
As pálpebras ficam pesadas & adormeço à meia-luz
Onde as cordas tocam a essência que se faz em segredo
Meus pés envolvidos por uma camada macia tocam o chão
Onde danço uma dança clássica & desajustada
O olhar espanto encanta
Dissemos versos que se perderam no agora
Versos prontos para serem desfeitos em águas quentes
Há uma nota de solidão no sol que pede licença pra entrar
Num ar de despedida
Extasiada respiro a cidade-nuvem

Cronos & absence

Estou em pausa.
Em caos.
Fora de órbita por tempo indeterminado.
Sou só o  reflexo borrado num espelho manchado de beijo
Onde o Amor só passou pra dizer Olá
É como se a terra me engolisse
E por um instante eu tivesse subido à superfície
Mas logo retornaria ao Abissal
Sou o espectro de uma ausência-plural
Hipnótica
Transbordo-me em desenhos que me intrigam
Reinvento-me  em poeira cristalizada
Onde as gotas de água asfixiam-se num pôr-do-sol anêmico

Cubos revelam a ausência

Dia de pausa
Pausa no corredor
Pausa no olhar
Pausa no falar
O difícil é seguir com a pontuação.
Seres viajando dentro da mesma cadência de um labirinto
O frio quer me congelar
Na fumaça do cigarro
As palavras não proferidas voam & querem dizer algo
Mas logo elas somem.
Invadir
Se adentrar num campo minado
É assim que vejo o caminho do sol
Como não respirar o frenesi de uma cidade embriagada?
Não querer estar.
Poesia conturbada & prematura se esvai
não há dúvidas.
Não a dúvidas.
Não há. Duvidas?
Estranheza se faz num moleton quentinho.

As notas da chuva

Em meio a noites de capuccino
Me perco nos desenhos a canetinha
Danço com um chapéu uma dança de olhos fechados
As notas estão quase inaudíveis
Entro em transe
Sou agora uma alma afogada no travesseiro
Onde o sol cega os meus olhos
Versos espalhados entre o meio-fio
Perfumam o que não mais será lembrado

Reconforto em abraço

Quando o dia termina sinto que sou uma unidade dissipada
A lua contamina o cinza de minha alma
Vidro quebrado em meio a versos não proferidos
Denotam a cor do céu amanhã
Se apenas soubéssemos que a solidão não nos deixará em paz
Estaríamos conectados
Como quando andávamos em noite de chuva fina
Pelas calçadas em reforma
Onde o jazz se faz numa bebida escarlate
O gosto é engraçado
& o sorriso continua largo
Como não pensar em amores ímpares & pares?
Com não virar verniz em dias de cachecol em meio aos livros
Refaço o mesmo caminho
Onde de cima eu posso sentir o cheiro dos livros
& ReAcordar as sombras de um plural apressado

O que se perde enquanto se respira

Por mais que você queira tentar esquecer algo ou alguém
É fato que se for por obrigação, você não vai esquecer.
Minha alma já esta inundada do abismo mais azul que penetra nas pedras inquietas da torre mais alta.
Sinto como se meus pés pesassem uma tonelada em meio aos pingos de chuva de uma noite de gargalhadas
O tempo é tão pouco quando se quer abraçar o mundo
Quando se quer escrever mil poemas
Quando se quer cantar a poesia em forma de tinta
Quando nos pegamos em meio aos devaneios mais obscuros
Espera-se que surja uma luz
E nada vem
Espera-se que a esperança te acompanhe
Mas quando se olha pra trás ela esta lá
Ainda muito longe da vida
Ah, se a vida fosse mais perto
Ah, se o pôr-do-sol nunca se pusesse
Poderia analisar a pincelada da sorte
Se eu pudesse delinear os vitrais da solidão com um batom vermelho…
Sepultura que imerge entre linhas e palavras doloridas de tanto que se espreme
Separam a poesia pura de algo que nunca será lido
Sinto como se eu mergulhasse entre duas dimensões
O ar que eu puxo me puxa pra baixo
Onde estou a base de múltiplos Eus
& É assim que eu apalpo a vida

Deformidades de canecas cintilantes

A solidão te visita quando não se pode retornar onde tudo começou.
É como se perder em seu próprio caminho e esquecer os segundos que modificaram a sua vida.
Sou o espectro de uma noite congelada
Onde as pontas dos dedos não se tocam mais
É como acordar em meio a um parque  de abraços secos & molhados
Seus olhos não mais passarão pelas palavras que aqui escrevo 
Porque acompanhar lírios brancos em meio ao caos é esperar demasiadamente 
Querer um contato é querer demais
Onde já não se sabe se o céu é mesmo cinza
Nuvens acalentam os bichos da alma
Vivo em meio a deformidades que sangram a linha do tempo
Onde um sorriso ultrapassa qualquer dor e lágrima que vier
Teria sido sem querer se tivesse havido choro em tempo de pipas
Respiração aniquilada entre conchas & temakis
Deturpam o que há de mais sagrado entre um amor e uma despedida

Bilhete circunstancial

Ando por entre as calçadas marcadas de giz
Onde as pessoas pedem perdão em silencio
Ninguém se olha
Mas todo mundo se vê
É como se fossemos bolhas coloridas que sucumbem o por do sol
Já não existe mais natureza nos atos
A respiração é outra
O tempo é outro
O tempo é a dor da alma que se multiplica em amuletos  secretos e intocáveis
Onde as corujas inalam o não saber
Desejo cinza sem reabilitação
Embalam as certezas que se deterioram em menos de cinco minutos
Revoltar-se
Prestar atenção  duas vezes até que sua mente cuspa a tinta que escorre por entre as veias
Cor silenciosa que chora como as árvores em dia de segundas feiras
Respiro o livro cigarro onde encontro o ponto  de partida
Não poderia ser tudo um pouco mais  natural?
A naturalidade esqueceu o caminho de ida
Vozes sucumbem o pensamento gélido das palavras ditas e não escutadas
Mente abstrata vaga paralelamente em faixas vazias de estacionamentos
Relembrando  poemas de Manoel de Barros
Onde o outro vira eu
Que viro vento
No relento da felicidade
Ouvira o que já não se pode mais julgar
Porque um mais um é igual a dois

Sopro

Sinto o chão me engolir
Os olhos perfuram a alma
& deixam escorrer o que há de mais obscuro
Respiro o abismo
Deixo estar  o pensamento que pesa entre a garoa fina e o asfalto
Apenas Três segundos em que  a vida te diz Olá
O Caos retorna
Na verdade ele nunca se ausentou
Estou ausente.
A ausência é como quando viramos pó
Quatro horas apenas
O tempo não é mais tempo quando se está preso
Meus pés faíscam o presente
Embebendo a alma  que exala sublimação