Verniz aos olhos

Pensamento transborda em chá de camomila
Apenas um segundo que se perde
O ar é inalado como quando a chuva molha as pétalas de um lírio
Já não se percebe o perdão que se esconde poe entre as palavras
Sou a respiração congelada

De uma metafísica ultrapassada
Sou a água quente que escorre num corpo esgotado
Sou o sino que soa a solidão

Quando as memórias se esvaem

Nas esquinas aveludadas mordisco a saudade

A saudade é como quando as folhas caem no outono
Quando não se sabe o caminho de volta
& você caminha por entre as árvores infectadas de desdém
É assim que você sobrevive
Quando seus olhos já não aguentam mais arder
O fogo corrompe o que ainda resta de pureza
Sou a água que invade a avenida principal
Sou o castelo de gelo que suporta um martelo voador em seus dias inebriantes
Sou os olhos da felicidade mistificada
Por onde as pessoas passam e deixam sua alma
Sou o crânio que nele habita lírios ensandecidos de luz
Sou a corrente embutida numa imagem congelada 
Onde é melhor não dizer nada ao amanhã
Caminho no asfalto que perfura meus pés
Onde prefiro matar o símbolo verde
Na dor  que dá-se quando a última frase é dita.

Quando o ar dissipa

A cada sol que nasce, sinto que o amanhã é o hoje.

A cidade está vazia. Não há muitos carros na cidade, mas a chuva toma de conta.
Chove como quando o jazz ainda ecoava em nossos ouvidos.
Gotas me fazem deslizar por entre as calçadas famintas de balões vermelhos.
Por que não deixar tudo como está?
Imagem dissipada em sorrisos.
Só.

Entre Velas

Entre velas, dá-se o recomeço.
Vozes ecoam nos pilares de açúcar
Onde a cera derrete e pinga no chão de abelha.
A cidade está vazia
& o sino bate oito horas
Ando sem cascos nas avenidas deturpadas
Onde um mendigo sonha em tocar saxofone.
Invisibilidade transmutada negocia com os olhos do passeador
O barulho é ensurdecedor
 A cidade Dopamina  atravessa o sistema nervoso central
& Aniquila qualquer estado de fúria social

A cidade chove e a saudade pinga como se o tempo fosse o senhor da razão.
É incrível como os lírios emudecem diante do olhar de conchas que sorriem lúgubremente.
Por que não deixar que os balões escapem?
Singular e plural que invade e explode em lágrimas.
Como será estar acordado  por vinte e quatro horas, só pra te ver dormir?
Que cor será a tinta borrada que certa vez pintou a minha face?
O bilhete no sonho diz: -O amor é uma couraça atrofiada pelo depois.

Espectros de um plural

O tempo é tão pouco.
As horas caem como amêndoas esquizofrênicas no barco da saudade. E quando se vê são apenas lembranças guardadas dentro de uma caixa.
Sonhei com o abraço molhado dos parques de diversões; com os balões vermelhos onde sobrevoavam o Cristo Redentor e apenas sorríamos.
Sorríamos a inocência das lanternas em dias de chuva onde a reverência do pianista enlouquecia o ambiente com seu jazz encantador.
Tudo não passa de imagens e palavras sortidas dentro de um vaso chiado.

No automatismo

Olhos de sangue que gritam o silêncio que arde nos raios da inconstância.
Olhos que desaparecem. E transformam. E transbordam. E transtornam.
Olhos de Édipo.

Corvos negros

Emudeço nas manhãs incertas
O calor do não querer
Não por nada
Mas por tudo
Tudo o que diz respeito a vontade de lograr os fins
Piso no piano que toca a sinfonia amarga da vida
São apenas sons coloridos
No derradeiro pensar
Apenas o heroísmo puro e descontrolado
Causador da insanidade
Como quem não quer nada
A desfaçatez caminha sobre as águas corrompidas
E as lamparinas não deixam de iluminar
O homem atroz que insiste em negar si mesmo
O delírio é uma desculpa que estabiliza o ser iníquo

Cílios afogados nas labaredas ilusórias

“Quando os olhos caem
O que resta é agonia
Samambaias passeiam entre as cortinas da derrotas
Soldados montam em rochas esqueléticas
Na fúria mundana eu sou Vênus 
Estandarte que oscila entre o semear e o praguejar
Violinistas fazem a profecia na Avenida Paulista
Sou a marca de um soco inglês na sua sobrancelha
Sou o ácido nítrico que arde em seus olhos
Sou o sorriso que sangra a espinha
Sou a nódoa do paletó
Onde as bocas se enchem de violetas & rolam escada abaixo
Sou o chumbo que atravessa sua consciência
Sou o estilhaço fincado no seu hipotálamo
Sou o metal que suspende suas unhas
Sou o frenesi da tarde descompassada
Onde os pássaros deixaram sua morada
& fizeram do verniz
Caleidoscópio”

Chá do sopro vermelho

Sorriso empedrado no deserto sulfuroso
Acaricia as manhãs de fevereiro- carnaval
Plumas espalham a beleza inefável
Carnívora e destrutiva
Pássaros amarelos rodeiam ampolas de morfina
E deixam engendrar no céu opaco da nudez
Guitarras que saltam do viaduto do chá
Corpos debruçados
Vozes se unificam
Veias incham o verde pálido
Formigamento esquelético da mão na barra de metal 
Fragmentos de pés no asfalto
Deixam saber que a hora chegou.