Pio em arrê

Tenho a chuva na minha mão 

Posso ouvir a mesma e natural canção 
O universo toca sem pedir
Caio em mim sem medo de emergir
Sem tarefas pra cumprir
Tempo parado
Sono pesado
Dormimos como anjos caídos
Sorrisos e sussurros ao pé do ouvido
Tenho a noite pura e bela
E o nosso amor em aquarela

Linguagem lunar

Hoje o dia está chuvoso

Esperando  as folhas das árvores enfeitar as calçadas
Sentada num banco a espera de uma gota cair sobre minha face
Olho pro céu e não vejo desenhos em nuvens 
O cinza toma de conta 
No cinza, há também a beleza embebida de vinho tinto
Logo estarei mais perto
Com meu braço aberto 
Poderei te abraçar
Na noite em que a lua brilhará
Porque ela estará olhando por nós

Entre meses

O sol nasce

A beleza começa a emergir
Sentinelas me golpeiam como a onda que se quebra no mar
Pesco faroletes embebidos de alecrim
Calmaria se estabelece depois de um longo silêncio 
Lágrimas permeiam a epiderme que se desmancha no pôr-do-sol
Os dias passam lentamente 
Vejo mais do mesmo
Mergulho em um aquário com pedras e corais
O ar me falta em meio a ondas azuis  & acordo com o coração palpitado 

Dali a pouco

Poemas rimados 

Metrificados
Permanecem intactos
Como o sol no deserto & seus cactos
Passeiam por entre as ruas
Como se fossem zumbis com suas mentes cruas
Vagam como fantasmas sem alma
Numa noite fria, chuvosa e calma
Um soneto nunca fiz
Automatismo psíquico me diz
Os versos vem na Aurora 
E se fazem poema outrora
Mansidão agridoce se esvai 
Até onde isso vai?

De momento

Flutuo em trilhos azuis esperando que a chuva viesse 

Esperando.
 Se Deus chorasse eu estaria ali, sentindo a sua lágrima cair do céu.
Vibro alto e o que sinto é uma leve dor de cabeça passageira, que depois dito como se meu corpo estivesse sendo erguido por um fio condutor que vem  do meio da cabeça e segue a coluna vertebral.
Sensação boa, mas que não permanece tanto tempo assim; os dias passam, o novo surge e não o vejo mais.
Talvez eu veja metade dele.
O cinza e o rosa.
Rosa…Rosas. Todas elas morrem rápido demais. São arrancadas e permanecem belas, intactas esperando alguém sorrir de volta. Sabem que serão esquecidas, deixadas de lado, num jarro com água , mas mesmo assim não perdem a oportunidade de fazer alguém sorrir.

Senhorinha Florida

Estava eu, ali,  sentada naquele lugar, onde todas as coisas eram brancas.

Fecho os meus olhos e o que vejo são ladrilhos cor de mel. Sinto cheiro de talco, ao qual não me é estranho.
Abro os olhos e vejo a Senhorinha florida.
Mulata, de cabelos  brancos, curtos e crespos; seu semblante era de alguém que já carregou muito peso na vida; de alguém que passou por muitas dificuldades, mas que não se faz vítima. 
Ergue a cabeça e cumprimenta as pessoas quando passam ao seu lado.
Em seu rostinho metade paralisado, ainda resta um sorriso de quem um dia venceu.
Ah, Senhorinha florida, se tu soubesses como és querida por mim, esta que nem ao menos  te conhece e nem sabe o seu nome.
Sua netinha lhe esperava no fim da escada. Com uma bengala e uma bolsa de lado, desceu  em outro tempo, um pé, depois apoiava a bengala, e logo depois apoiava o outro pé. Estava ali, satisfeita, segurando no corrimão. Azul celeste, como a senhorinha. Celestial.

Pés dançantes

Entro em transe quando as linhas ficam dançando e me levam para um lugar onde se é palpável.
A vista cansa e então quando se olha pro lado, aquele universo é congelado por um instante e você continua ali, sentada, vendo as pessoas passarem de um lado para outro.
Pessoas se trombam na rua olhando para seus aparelhos eletrônicos.
Meus olhos retornam àquela página amarelada de grifos alaranjados. Como pode alguém ter tamanha naturalidade para decorrer sobre um assunto determinado tão bem?
Tão sucinto e tão mágico.
As imagens vão se formando ao som de uma ópera de Callas.
Um grande baile se é formado. Pés dançantes transitam por uma urbe desolada.
A pressão altera, o sol está escaldante.
Uma ópera ou som de uma sirene. Já não e sabe, o som se deixa confundir quando a percepção está sendo desviada por algum outro querer ou estado de alma.
Querer algo.
Ter vontade.
O que nos move?
O querer nos move?
Mas o que move o querer?
Um outro Querer?
Querer :  do latim “quaero, ere” , procurar, buscar, perguntar.
Querer não deixa de ser uma escolha. Quando se escolhe,  você exclui uma outra possibilidade.
“Ou isto, ou Aquilo” e por que não os dois?
Uma voz ainda ecoa. Que voz é esta, e que Eco é este?
Um som que se repete; no vazio de um ambiente inabitável.

Quarta-feira não é quinta, nem depois da Meia-noite

Hoje o sol foi o meu despertador

Mais um ano.
Deitada na quentura dos pensamentos, Gabo me veio a cabeça.
Velhice. Curiosidade. Tédio. Renovação.
O dia me presenteia com  Diamantes, Águas Vivas, Todinhos,Potinhos! cabeleira  e sorriso grandioso da negaiada; e me golpeia com Ursos silenciados (osos).
Ligação maravilhada, de manhã e de noite.
Amigos, amigos, amizade? 
Amizade

Com a lei dos ópio

O sono vem como se não quisesse nada

Olhar entrelaçado sucumbe dimensões paralelas
Vontade de ter vontade de ser um pote
Porque no pote você toca o universo
“Imagens, imagens, sempre imagens”
Coladas ao corpo
Dissipam a existência
Espectros sensatos de uma manhã sem glória
Se esvaem
Não procure a felicidade
Seja.

Rabiscos de uma jangada vítrea

Páginas em branco soluçam o não dito
O silêncio congelado
Olhares incertos derretem meu pulmão
Tempo que já não é mais tempo
Novos ares
A saudade encandeia e pinta o sol de laranja
Num barco sem vela
Centauros tocam poesia que se esvai em pétalas
Imagens golpeiam-me em bases sólidas &
Dissolvem